quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Guardador de Rebanhos - Poema XVII

No meu prato que mistura de Natureza!
As minhas irmãs as plantas,
As companheiras das fontes, as santas
A quem ninguém reza...

E cortam-as e vêm à nossa mesa
E nos hotéis os hóspedes ruidosos,
Que chegam com correias tendo mantas
Pedem "Salada", descuidosos...,
Sem pensar que exigem à Terra-Mãe
A sua frescura e os seus filhos primeiros,
As primeiras verdes palavras que ela tem,
As primeiras cousas vivas e irisantes
Que Noé viu
Quando as águas desceram e o cimo dos montes
Verde e alagado surgiu
E no ar por onde a pomba apareceu
O arco-íris se esbateu...

Alberto Caeiro

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Não mais sob a árvore de Bô

Não mais a pureza de Ramahyana
o incenso e o sândalo
os pés nus nas pedras do templo

enquanto eles comerem na minha mesa
na velha casa de Dili
não mais me sentarei sob arvore de Bô

Jorge Lauten

"Ramahyana - poema épico da Índia antiga que narra as aventuras do rei guerreiro Rama, que terá vivido nos séculos VIII ou VII antes de Cristo. O poeta timorense Jorge Lauten invoca essa mesma época no poema 'Não mais sob a árvore de Bô', e compara a pureza do viver tradicional timorense com a pureza de que fala o Ramahyana."
Sophia de Mello Breyner Andresen

(Ana Cortinhas)

Os Cardos

Ai, que plantaram cardos por suspeita
No meu jardim de rosas de algum dia!
Quem é que azedos em meu vinho deita?
Um triaga tal, quem na engolia?

E o búzio de sonhar, de boca estreita,
Onde a maré da minha infância ardia?
Seu musgo e já verdete. A vida espreita
E arruina tudo o que a nossa alma cria.

Aceitarei os cardos para rosas:
Meu sangue estimulado as dá de si
Como todas as coisas preciosas.

E para o vinho azedo e quente o tenho ali
Para as noites mais frias e saudosas -
Que outro não quero mais, se o já bebi.

Vitorino Nemésio

(Ana Cortinhas)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte

A planície é um brasido e, torturadas,

As árvores sangrentas, revoltadas,

Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!Árvores!

Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Papoilas

Até ao fim do mundo, haverá coisas fascinantes para viver e fazer, coisas que redimirão o instinto, aqui e além, como manchas rubras de papoilas gritando na monotonia amarela de um trigal..."

Álvaro Guerra, Razões do Coração


(Luís Neves, com agradecimento à Tixa)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e o outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indif'rença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis

(Ana Cortinhas)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Nem ver despontar rosas na alvorada

Nem ver despontar rosas na alvorada,
nem lírios um regato a debruar,
nem ramo de ave ou alaúde a soar,
nem gema no seu ouro bem cravada,

nem gargantinha a zéfiros passada,
nem o ranger da nave sobre o mar,
nem ninfa em águas ledas a bailar,
nem ver a tudo a primavera dada,

nem campo armado e em lanças eriçado,
nem antro em verde musgo atapetado,
nem cimos da floresta em suas tranças,

nem rocha onde o silêncio santo nasce,
me alegram mais que o prado onde pasce
este meu esperar sem esperanças.

Vasco Graça Moura in "Alguns Amores de Ronsard"

(Ana Cortinhas)